Os bens comuns essenciais para a manutenção de atividades tradicionais, como a agricultura e a pesca, são também essenciais para a indústria do aço. A terra, a água e o ar das localidades cobiçadas pela siderurgia no Brasil são, portanto, objetos de disputa entre populações locais e empreendimentos
A dona de casa Gorete Anacé fala sobre as maquetes oficiais do Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP), no Ceará, com indignação: “pra essas pessoas [que construíram as maquetes], antes das fábricas chegarem aqui, era tudo mato, mas é mentira!” A indígena leva cabelos lisos e longos, tem olhos decididos e sorriso franco. Ela mora desde que nasceu na região do Bolso, um dos 33 aglomerados populacionais engolidos pelos 13,3 mil hectares onde agora também estão altos-fornos, turbinas, geradores elétricos, piers e guindastes.
A família dela e centenas de outras chegaram àquele pedaço do município de São Gonçalo do Amarante, na região metropolitana de Fortaleza, muito antes do megaprojeto. Apesar disso, o governo do estado, quando começou a fechar negócio com empresas transnacionais a fim de trazer empreendimentos para o CIPP, defendeu publicamente uma cartografia da terra local sem áreas residenciais representadas.
A invisibilização das populações afetadas pelos empreendimentos do aço é apontada por defensoras/es de direitos humanos como uma estratégia de empreendimentos industriais de grande porte, a exemplo das siderúrgicas, em diversos contextos.
A recepção da equipe de pesquisa e reportagem do Pacs em Bolso, no Pecém, foi feita pela coletividade – a família
Anacé de Gorete relatou junta os percalços e vitórias de mais de dez anos
A bióloga e atual presidente do Partido Socialismo e Liberdade (Psol) do Ceará Cecília Feitoza estudou o contexto específico do Pecém no mestrado e traz detalhes da história: “As comunidades afetadas pelo CIPP não eram mapeadas pelo poder público. A Pastoral do Migrante chegou à região ainda em 1999. Era a Pastoral do Migrante porque se imaginou que muita gente ia migrar para lá, mas quando as missionárias chegaram lá perceberam que já havia uma população local antiga. Foi a partir desse estranhamento que as populações e a Pastoral começaram a resgatar a história do lugar e perceberam a raiz indígena”.
Outra estratégia industrial apontada por pesquisadores/as críticos/as a modelos econômicos excludentes é justificar a importância dos empreendimentos poluidores e violadores de direitos pela geração de vagas de trabalho.
“O projeto industrial cearense é extremamente concentrador de renda. Os governos entram em guerra fiscal com outros estados, trazem as empresas para os distritos industriais e vendem a ideia para a população através do discurso do emprego. O problema é que esse emprego não se sustenta, porque boa parte das indústrias não se integra à cadeia local. Ao redor dos distritos industriais, as moradias se tornam conjuntos habitacionais com altíssima exploração da força laboral, e a maioria dos cargos com maiores salários não são ocupados pela mão de obra local”, analisa o economista e doutor em filosofia Fábio Sobral, professor do Departamento de Teoria Econômica da Universidade Federal do Ceará (UFC).
Quem decide o que são obras estruturantes?
As bases para a instalação do polo industrial e portuário no distrito de Pecém foram lançadas ainda na década de 1960, no mandato de Virgílio Távora como governador biônico do Ceará (1963-1966), antes mesmo de Gorete nascer. A frase “o Ceará não é o umbigo do mundo”, proferida pelo político militar e tornada célebre pela perpetuação de um pensamento semelhante ao dele no executivo estatal, defendia a abertura do estado nordestino para capitais estrangeiros, com vistas à industrialização.
A ditadura empresarial-militar passou, e os governadores cearenses deixaram de ser indicados pela cúpula militar federal e passaram a ser eleitos pela própria maioria populacional. No entanto, a ideia de desenvolvimento nacional essencialmente atrelada à industrialização exportadora permaneceu central em diversos mandatos, tanto do executivo federal quanto do estatal.
A infraestrutura necessária à concretização de um plano de desenvolvimento no estado foi alimentada ao longo dos anos: Eixão das Águas (conjunto de obras composto por estação de bombeamento, canais, adutoras, sifões e túnel que realizam a transposição das águas do açude Castanhão para a região metropolitana de Fortaleza); açude Castanhão; transposição do Rio São Francisco; e o próprio CIPP.
Enquanto essas construções eram implementadas, toda e qualquer informação sobre o assunto que chegasse aos territórios implicados nos planos estatais assumia a forma de boatos. As interfaces oficiais com a sociedade afetada pelo CIPP só apareceram a partir do acirramento da pressão popular, quando os acordos entre empreendimentos e governo do estado já estavam fechados.
Segundo relatos de moradoras do território, a primeira ação concreta da chegada do CIPP na terra onde Gorete e familiares Anacé vivem foi a expulsão de mais de 300 famílias que moravam e plantavam no terreno onde hoje opera a Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP). Elas formavam a comunidade Gregório, parte da região de Bolso. Foram removidas, em 1997, com pouca ou nenhuma indenização. Os laços comunitários se perderam para sempre.
A perda do lugar onde se nasce e vive nem sempre é imediata. Ela também se forma ao longo dos anos, como uma sensação gradual de sufocamento. Um dia percebe-se que o quintal já não dá tantos frutos, que o córrego secou, que as notícias de famílias removidas de comunidades vizinhas já se avolumam. Daqui a nada, as atividades rotineiras como a pesca, a agricultura familiar e o artesanato comunitário também perdem corpo; e a maioria dos referenciais espaço-temporais se vão: a igreja onde se ia aos domingos é derrubada, a mercearia da esquina fecha, o lugar já não oferece perspectivas para a juventude.
“Um morador, o José Severiano, saiu daqui para uma casinha minúscula na beira da estrada [CE 085]. Antes ele plantava coco e banana, pescava. Com a poluição, não dava mais para ele trabalhar como trabalhava, então ele foi embora. Mas não aguentou. Enchia a cara e vinha parar no sitiozinho. Com um ano e meio assim, ele morreu”, narra Conceição Anacé , dona de casa e irmã de Gorete. Ela diz que casos semelhantes ao de Severiano são comuns em Bolso.
A barragem inimiga da pesca
A mais de 2.600 quilômetros do Porto do Pecém, na periferia carioca de Santa Cruz, as perdas de pessoas próximas e dos modos de vida coletivos também estão presentes no dia a dia da vizinhança.
Jaci Nascimento é pescador e liderança popular aguerrida na resistência aos impactos socioambientais da ThyssenKrupp Companhia Siderúrgica do Atlântico (TKCSA), operante às margens da avenida João XXIII desde 2010. O homem é capaz de conversar por horas sobre as pessoas que viu definhar com o avanço das perdas de zonas pesqueiras locais.
Ele próprio já não é mais o mesmo desde o primeiro baque, há mais de dez anos, quando as obras do porto privativo da siderúrgica comprometeram a pesca na região da Baía de Sepetiba, cheia de vida marinha. De lá para cá, essa atividade foi arruinada de maneira paulatina, e quem sobrevivia dela precisou procurar complementos de renda.
Em 2015, a devastação do modo de vida de Jaci se acelerou. A construção de uma barragem para impedir a entrada excessiva de água salgada no canal do Rio São Francisco foi realizada pela Associação de Empresas do Distrito Industrial de Santa Cruz (Aedin). A obra foi justificada pela Secretaria do Estado de Ambiente do Rio de Janeiro como extremamente necessária à atividade fabril local em um contexto de crise hídrica.
Com essa intervenção empresarial, as pequenas embarcações ancoradas no canal tiveram bloqueada a única saída para o mar, de onde ainda conseguiam voltar com uma quantidade economicamente viável de peixe. Muito frágeis, os barcos não conseguiam vencer a pequena correnteza que se formava pela estrutura. Depois de mais de dois anos de protestos coletivos e idas à Defensoria Pública do estado do Rio de Janeiro, 102 pescadores conseguiram na justiça o direito a uma indenização pelos danos causados, e a barragem foi retirada.
Embora a obra tenha sido realizada sob o guarda-chuva de uma Associação de Indústrias, o acordo entre a Aedin e os pescadores foi mediado pela Defensoria e explicitou que a barragem beneficiou em específico a TKCSA, a usina local da Gerdau (outra siderúrgica, de capital nacional) e a Casa da Moeda. Diante de todos os danos causados pela indústria de aço em Santa Cruz, essa única indenização, ainda que somada às multas por poluição do ar nos primeiros anos de operação da usina, não é satisfatória para a resistência popular ao empreendimento.
A venda da TKCSA muda a vida da população de Santa Cruz?
A antiga TKCSA agora se chama Ternium Brasil. O processo de aquisição da usina pelo grupo ítalo-argentino Ternium foi finalizado em setembro de 2017. A Ternium tem no seu histórico denúncias de violações de direitos humanos no México e na Guatemala. Quando procurou instalar uma usina no Porto do Açu, região norte do estado do Rio de Janeiro, ela teve suas intenções frustradas pela justiça por irregularidades no licenciamento ambiental relacionadas ao uso de tecnologia poluente.
A mudança de proprietário da usina causou vários questionamentos nas/os participantes da campanha “Pare TKCSA”. “Ela vem reconhecer direitos da população vizinha ou perpetuar o modelo poluidor e autoritário?”, questiona Gabriel Strautman, coordenador adjunto do Pacs.
A campanha Pare TKCSA é instrumento de resiliência na luta para a população de Santa Cruz (RJ)
afetada pela siderurgia que hoje se chama Ternium Brasil
A campanha Pare TKCSA é instrumento de resiliência na luta para a população de Santa Cruz (RJ) afetada pela siderurgia que hoje se chama Ternium Brasil
Para o presidente eleito do Sindicato dos Metalúrgicos de Ipatinga Geraldo Magela, a alteração do grupo econômico no controle de siderúrgicas tem pouco potencial de melhorar o dia a dia de quem está na resistência, uma vez que o objetivo é sempre o lucro.
A Ternium é controladora da siderúrgica Usiminas desde 2011, quando comprou as participações da Camargo Correia e da Votorantim. A outra sócia controladora da Usiminas é a Nippon, com quem a Ternium tem apresentado desentendimentos públicos, tendo sido inclusive cogitada uma cisão dos negócios.
Que indenização devolverá nossa saúde?
Na localidade de Piquiá de Baixo, em Açailândia, Maranhão, as perspectivas para o futuro próximo geram muitas dúvidas e algumas expectativas. O bairro viu mortes o bastante antes da Associação de Moradores/as conseguir indenização e reassentamento; as empresas não foram responsabilizadas judicialmente por essas vidas perdidas.
Desde 1988, fábricas de ferro-gusa se instalaram no bairro e ao redor dele. O ambiente com características rurais foi transformado em um grande pátio de indústria, gerando a perda gradual do lugar daquelas pessoas, como bem conhece a família de Gorete Anacé lá no interior do Ceará.
Os altos-fornos estão ao lado dos quintais. Detrás de casas, há pilhas de escória, um britador e a Estrada de Ferro Carajás (EFC), que transporta minério de ferro extraído pela Vale S.A. em Parauapebas, no Pará, até o porto da companhia em São Luís do Maranhão. “De começo, o pessoal dizia que as fábricas iam trazer emprego, que era boa coisa. Mas hoje você estende uma roupa no varal, e ela fica preta de pó. O pessoal coloca sangue pelo nariz, tem falta de ar. Vai se acabando aos poucos”, explica Antônio Rios, um dos moradores de Piquiá de Baixo que participa da luta pelo reassentamento.
Reportagem especial do Canal Saúde mostra a iniciativa conjunta da juventude
de Piquiá de Baixo (MA) e Santa Cruz (RJ) na vigilância popular em saúde
A termelétrica da Gusa Nordeste, uma das duas empresas siderúrgicas que permanecem no local, faz um barulho ensurdecedor ao mesmo tempo em que uma coluna de fogo é cuspida das torres em horários esporádicos, inclusive no meio da noite. “A termelétrica é muito barulhenta. Quando começa o alarme, não para mais. Pode durar duas horas ou dois dias. É tão alto que não dá pra conversar, ver tevê… Não dá”, descreve o carpinteiro e morador do bairro Antônio Alves.
Piquiá de Baixo se tornou um conjunto de casas pauperizadas e cobertas pelo pó ferroso, muitas delas já abandonadas e demolidas. Os comércios todos fecharam, o posto de saúde não tem médico/a nem enfermeiro/a, as praças estão entulhadas com lixo. Quem pôde foi embora, quem ficou se sente cercado/a.
Mas a mudança de bairro, aprovada em janeiro de 2016, ainda não aconteceu. E, para as pessoas que viveram e ainda vivem de perto as consequências das fábricas na saúde da população local, a mudança de endereço não resolve.
“O reassentamento é uma medida de prevenção a novos danos, mas ela não sana os prejuízos que já aconteceram. A vida dessas pessoas mudou completamente e contra a vontade delas, muita gente morreu, muita gente adoeceu… É importante que isso tudo seja reconhecido”, pontua o assessor jurídico da Justiça nos Trilhos Danilo Chammas.
Bolso, Santa Cruz e Piquiá de Baixo têm traços comuns para além de viverem a descaracterização de modos de vida tradicionais a partir da implantação de empreendimentos relacionados à cadeia produtiva do aço em território nacional. As três localidades também são vizinhas de firmas exportadoras cuja principal cliente é a cadeia produtiva de aço dos Estados Unidos da América (EUA). Mais da metade das placas de aço produzidas no Brasil são exportadas para os EUA; assim como quase 60% do ferro-gusa.
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