Quais são os benefícios da fabricação de aço e ferro? Quem goza deles? Quase 80% de todo o aço bruto produzido no mundo é fabricado no Brasil, na Rússia, na Índia, na China e na África do Sul. O que nos reserva a corrida pelo desenvolvimento? Quem paga o preço mais alto?
O Brasil tem mantido posição no rol das dez maiores nações produtoras siderúrgicas mundiais desde os anos 1980. De acordo com informações do Instituto Aço Brasil (IAB)1, 2,1% da produção planetária acontece aqui, o que faz do país o atual 8o lugar da lista, encabeçada pela China. A porcentagem brasileira, aparentemente pequena, garante considerável desigualdade regional: o maior território nacional da América Latina é também responsável por mais da metade do aço originado no subcontinente.
O padrão se repete no entorno de algumas das demais nações integrantes do Brics2: a Rússia produz 70% do aço da Comunidade dos Estados Independentes (CEI)3; a Índia, 8% da produção asiática; a China, 72%; e a África do Sul é responsável por 47% do aço africano. Juntas, essas nações produzem mais de dois terços de todos os produtos siderúrgicos do mundo.
O maior consumidor do aço produzido no Brasil é o parque siderúrgico dos Estados Unidos, seguido a certa distância pelo da Argentina. A produção de aço bruto estadunidense, apesar de ser mais do que o dobro da brasileira, é pequena se comparada com a demanda interna daquele país. Os EUA são a nação que mais importa aço. De acordo com a World Steel Association (Associação Mundial do Aço), em 2015, foram 38,5 milhões de toneladas.
Produzir aço bruto é uma atividade industrial altamente intensiva em água, energia e minerais; o que significa que ela sobrecarrega os recursos naturais dos territórios onde se instala. Portanto, segundo uma avaliação do Pacs, quando se constata a concentração da produção de aço bruto em países do Brics, constata-se também a concentração de passivos ambientais e sociais nesses territórios. Por outro lado, os países que mais consomem são aqueles que mais evitam os danos da cadeia, embora necessitem do produto e disponham de empreendimentos que lucram com ela em território nacional.
No Ceará, o uso excessivo de bens comuns pelas indústrias transnacionais fica evidente especialmente em relação aos recursos hídricos. “Nós temos três grandes projetos altamente intensivos em água no CIPP: a siderúrgica e as duas termelétricas. Elas puxam o consumo do complexo portuário. [destaque na diagramação]Uma pessoa precisa em média de 110 litros por dia. A Companhia Siderúrgica do Pecém consome 129,6 milhões l/dia, o equivalente a 1,2 milhão de pessoas. Essa água hoje vem do Castanhão, via Eixão das Águas. O Castanhão abastece também a região metropolitana de Fortaleza, que tem uma população em torno de 3 milhões. Estamos falando de um açude que hoje está com 5,5% da sua capacidade. Não é racional[/destaque na diagramação]”,afirma o climatologista cearense Alexandre Araújo, à frente do Fórum Ceará no Clima.

Vamos pagar o superávit primário com água?
A balança comercial siderúrgica do Brasil é superavitária, o que significa que entra mais dinheiro no país relativo à exportação do aço do que sai para pagar importações. No entanto, o produto exportado tem valor agregado baixo se comparado ao preço de outros produtos manufaturados aqui. Das 33,3 bilhões de toneladas de aço bruto produzidas em 2015, 13,7 bilhões foram exportadas; ou seja, 42% do total.
A partir de dados disponibilizados pelo IAB, o Pacs estima que a tonelada dos semiacabados – placas, blocos e tarugos – exportados pelo Brasil custou para compradores, em média, US$ 345 FOB4 em 2015. Já a dos planos – bobinas, chapas, folhas e inoxidáveis – custou, em média, US$ 540 FOB; a dos longos – barras, vergalhões, fio-máquina, perfis, trilhos – US$ 1.066 FOB; e a de produtos mais elaborados custou, em média, US$ 1.493 FOB
A pauta de exportações do aço brasileiro é baseada em produtos semiacabados. Quase metade de todo o aço vendido para fora do país é placa de aço. Além de ser o carro-chefe das exportações, a placa é também o produto de excelência da Companhia Siderúrgica do Pecém e da Ternium Brasil.
Os semiacabados, como o próprio nome diz, são intermediários. Ainda outras etapas industriais precisam acontecer para que eles se tornem um produto a ser vendido para o consumidor final: um carro, uma geladeira, uma viga de construção, etc. Nenhuma etapa é tão intensiva em água quanto a produção de aço bruto. De maneira que qualquer país que vende aço bruto, ou semibruto, para outros países está também entregando para os compradores trilhões de litros de água.
1 O mais recente documento consolidado produzido pelo IAB é o Anuário Estatístico 2016.
2 Acrônimo que se refere a países considerados mercados emergentes pela ordem globalizante do capital: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.
3 A CEI é uma organização supranacional de territórios pertencentes à antiga União Soviética criada após a Guerra Fria; volta-se para a segurança coletiva das 11repúblicas membros.
4 Valor do produto sem o frete, que deve ser pago por quem compra.